O Barata, a Maharani e o Setembrino
Luis Fernando Verissimo
Os pais da Michele se entusiasmaram quando souberam que ela estava namorando um moço chamado Barata. Finalmente, alguém com um nome reconhecível e respeitado. A família Barata era grande, fazia parte da história do Brasil, tinha membros ilustres. Finalmente. Depois de namorar Gugas e Tucos e Tatás e similares – até um chamado Afu – a Michele arranjara um que podia apresentar em casa. Finalmente, alguém com sobrenome.
Mas no outro dia a mãe contou, decepcionada, para o pai:
- Sabe o Barata?
- Quequitem.
- Não é sobrenome. É apelido.
A MAHARANI
Houve um período em que, num certo hotel do Estoril, estavam hospedados nada menos do que sete ex-potentados, todos expulsos dos seus países e privados do seu poder e das suas posses. Quando se reuniram os sete num dos salões envidraçados do hotel, esperando a hora do jantar, não se ouviam muitos elogios a repúblicas. Antes, preferiam todos relembrar os seus dias de absolutismo e arbítrio, um querendo ser mais tirânico do que o outro, numa espécie de torneio de barbaridades carinhosamente guardadas.
- Desviei fundos do hospital das crianças para renovar a prataria do castelo.
- Mandei matar 17 primos, para assegurar minha sucessão.
- Eu pedia para me chamarem na sala de torturas, quando iam espremer um dedão. Adorava espremer dedão.
- E eu? E eu? Fui o introdutor do esquartejamento equestre. Amarrava-se um cavalo a cada braço e perna do meu desafeto, cada um apontando para uma direção diferente, e...
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Um dia, chegou ao hotel a Maharani de Padjur, com o seu séquito. A Maharani não havia sido expulsa da Índia por uma revolução republicana. Havia sido expulsa pelos ingleses. Até os ingleses tinham achado demais os hábitos da Maharani. E que hábitos eram esses?
Na sua primeira noite no hotel, reunida com os outros ex-potentados num dos seus salões envidraçados esperando a hora do jantar, a Maharani contou: só tomava banho de lágrimas. Como, banho de lágrimas? Mandava sua guarda pessoal para as ruas de Padjur com ordens para encher baldes com lágrimas, o bastante para encher de lágrimas a sua banheira de ouro. E banhava-se nas lágrimas. Não se interessava pelo que os guardas faziam para obter as lágrimas. Eles eram livres para escolher o método de provocar lágrimas na população da província. Podiam improvisar, inventar maldades inéditas, exercer a sua criatividade. O importante era colherem lágrima suficientes para encher a sua banheira de ouro, todos os dias. Pois a Maharani banhava-se todos os dias.
- Mas – quis saber um grão-duque assassino – as lágrimas não são salgadas?
- São – disse a Maharani – mas também são o liquido mais puro que existe. Só quem se banha em lágrimas pode dizer que está realmente limpo.
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Naquela noite, os ex-potentados foram para o jantar em diferentes estados de depressão. A Maharani superava todos. Ninguém poderia ser mais tirânico e cruel do que ela. Tinham sido humilhados, e logo por uma mulher! Mas quando se reuniram para o café da manhã seguinte – a Maharani, cansada da viagem, dormiria até o fim do dia – os ex-potentados já não estavam tão convencidos de que a recém-chegada os vencera. Afinal, ela não dissera que não fazia questão de saber como a sua guarda provocava as lágrimas? Um típico prurido de mulher, que a desqualifica como déspota. E outra coisa. Ao contrário deles, que cometiam maldades por caprichos, pelo prazer de serem maus e para ostentar e preservar seu poder, a Maharani era má por uma causa nobre, e até inspiradora: a higiene pessoal.
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Quando se reuniram num dos salões envidraçados do hotel de Estoril para esperar a hora do jantar daquela noite, os ex-potentados sorriam com superioridade para a Maharani, que obviamente não pertencia à classe deles. E o grão-duque assassino ainda fez uma ironia. Inclinou-se na direção da Maharani e perguntou, em tom confidencial:
- O que está achando da água do hotel?
MONOGRAMA
Quando Setembrino chegou em casa encontrou um homem vestindo o seu robe de chambre com o “S” bordado e abraçado à sua mulher, no sofá da sala.
- Setembrino! – gritou a mulher, pulando do sofá.
- Setembrino... – disse o homem, alisando o monograma – Esse eu nunca ia adivinhar. Pensei em Sérgio, Saul, Salviano...
Domingo, 21 de novembro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.